Obs.:Preservada a grafia original.

Orfanato "Julia Carvalho"

 Não por mera casualidade, mas movidos por um natural dever de consciência, fomos visitar, ha dias, o Orfanato "Julia Carvalho", desta cidade, em companhia dos srs. Francisco Woyames Pinto e Ernesto Plastino.

Fôra de supor, e o confessamos com franqueza, que alí fôssemos encontrar, na mais obscura orfandade, pobres e humildes crianças que, além de sofrerem privações, mostrassem a todos, refletindo nos olhos, um desalento profundo ou que trouxessem, nas faces pálidas, o estígma indisfarçável de uma comovedôra tristeza, como se tantos males e infortúnios atormentassem, afinal, suas vidas vazias, tristes e melancólicas. Um doloroso poema de angústia parecia existir em cada uma daquelas crianças. Muitas desilusões e desventuras, julgávamos, poderiam revelar aquelas pobres criaturas, na alma e nos andrajos.

Mas tão enganados estávamos que enternecidos, admirados e embevecidos nos quedamos ao conhecermos de perto o Orfanato "Julia Carvalho", encontrando em seu interior, por entre seus páteos e aléas, felizes e risonhas criancinhas, distantes dos cuidados, das inquietações e do torvelinho de paixões dêste mundo, cercadas de conforto e carinho e abrigadas sob o manto protetor da mais pura caridade humana e cristã.

E enquanto percorríamos o Orfanato "Julia Carvalho", modelo de administração e de ordem, exemplo de altruísmo e abnegação, senhorita Maria de Lourdes Rio Vez, que nos acompanhava, contou-nos a história comovente e singela daquele acolhedor estabelecimento pio. História eloqüente de um ideal sublime e que simboliza, com rara expressão, o heroísmo admirável de uma mulher quase santa e que conseguiu, com a fôrça inabalável de sua fé, com coragem, denôdo e espírito de renúncia, transformar em dôce realidade o seu acalentado sonho de proteção e amparo às suas "crianças descalças": d. Isolina Carvalho!

Assim, aos 15 de Novembro de 1939, fundava-se o Orfanato "Julia Carvalho" que, a partir de então, passou a lutar com dificuldades inomináveis, heroicamente vencidas, mas agravadas sempre pelo descaso e pela indiferênça daqueles que poderiam, ao menos, levar ao Orfanato as migalhas do seu pão de cada dia. Felizmente existem, ainda, alguns bons e generosos corações, raras, honrosas e sublimes excessões e, dentre estas, justo seria, por exemplo, que frizassemos, com especial relêvo, a pessôa do sr. Francisco Woyames Pinto, m.d. gerente da agência local do Banco Mineiro da Produção S/A, cujo trabalho, em benefício do Orfanato, chega, realmente, a merecer os maiores encômios. O sr. Francisco Woyames Pinto, com abnegação e devotamento fora do comum, exerce, também o cargo de mordomo do Orfanato.

A 16 de Julho de 1954, inaugurava-se o Orfanato "Julia Carvalho", oportunidade em que grandes festas assinalaram o grato acontecimento.

Interessante é frizar que, anteriormente, no período compreendido entre Maio e Novembro de 1953, o Orfanato servíra como Hospital. Hoje, porém, à sombra de suas telhas têm abrigo 24 crianças, rodeadas de confôrto civilizado e imensurável bondade.

Tereza Justina de Macêdo, com 12 anos de idade, foi a primeira menina a ser internada no Orfanato, fáto que ocorreu precisamente a 18 de Julho de 1954. A seguir, outras mais surgiram, em diferentes épocas e na seguinte ordem: Margarida e Julia, com 11 e 5 anos de idade, respectivamente; Euza e Aparecida, com 4 e 2 anos; Maria, Geralda e Alda Santana, com 8, 5 e 2 anos; Onilda e Vera Lúcia, com 6 e 7 anos; Elizabete e Wilma, com 4 e 2 anos; Ivaníi, com 12 anos; Rosa Maria e Vicentina, com 5 e 3 anos; Dorací, Maria Aparecida e Maria Teresinha, com 8, 7 e 5 anos; Maria do Rosário, com 7 anos; Djanira, Edna e Dirce Helena, com 10, 5 e 2 anos, e, finalmente, Sônia, com apenas 1 ano de idade!

Dona Adélia Silva Machado presidiu a Diretoria da Fundação do Orfanato e preenchidos foram os demais cargos dessa Diretoria pelas seguintes pessôas: Carmem de Souza Azevedo, Florispina Soares de Freitas, Edisonina de Morais, Waldira Carvalho Morais e Izolina Carvalho, esta última como diretora-chefe.

No Orfanato, em 1956, funcionou uma escola sob a eficiente direção da professora Ábia Santana Práis. Atualmente, essa mesma escola obedece à orientação não menos profícua de d. Argelina Inez da Rocha. Tambem algumas aulas de corte e costura foram dadas por Lídia Bandeira, ainda no ano de 1956. A tarefa de zelar das crianças nas horas de recreio ou diversões, d. Izolina Carvalho houve por bem confiar à abnegada d. Isabel, de cuja bondade jamais se poude duvidar.

Presentemente, a Diretoria do Orfanato está assim constituida: Presidente: João Melo dos Santos; Vice-Presidente: Francisco Woyames Pinto; 1º e 2º Secretários: d. Lêda de Paula Gomes e Joaquim Domingues de Menezes; Tesoureira: sta. Maria de Lourdes Rio Vez.

Sob a orientação dessa mesma Diretoria, em Dezembro último, por ocasião dos festejos do Natal, realizou-se no Orfanato uma festa simples, mas que se revestiu de grande beleza, para que fossem entregues às crianças vários brinquedos e tecidos, além de farta mêsa de dôces. Essa solenidade foi presidida pelo Meretíssimo Juiz de Direito da comarca, dr. José Salles Filho. Aliás, os instantâneos que ilustram esta reportagem foram colhidos por ocasião dessa encantadora festa.

Infelizmente, o Orfanato "Julia Carvalho" tem enfrentado, como sempre aconteceu, dificuldades muito sérias. Por exemplo: em quantidade suficiente, não há carne, não há pão, não há remédio, não há leite. Os poucos recursos do orfanato representam dinheiro.
Dinheiro às vezes implorado, às vezes difícil, às vezes minguado. É de se lamentar profundamente o fáto de existirem em nosso municipio tantos abastados fazendeiros, enquanto as crianças do Orfanato, a rigor, não recebem, por esmola, uma gota de leite siquer, o que, para nós, constitue, não um acinte, mas uma vergonha deslavada, chegando mesmo a ferir, frontalmente, os nossos brios de gente civilizada.

E é por essa razão que chamamos a atenção dos ricos e afortunados, dos opulentos e dos soberbos de nossa cidade, fazendo-lhes vêr a necessidade de comparecerem todos ao Orfanato "Julia Carvalho" afim de depositarem, a juros, naquele Banco de Deus, uma pequena moéda de suas fortunas. A caridade, bem sabemos, consiste em praticar o bem, não se limitando, porém, a auxilios materiáis: casos há em que mais valem palavras consoladoras. Mas, perguntamos, estará o Orfanato recebendo de todos nós, ao menos a "esmola" de um olhar piedoso ou o "donativo" de uma palavra confortadora?

Por que não realizarmos uma cruzada piedosa e cristã em favor das crianças que o Orfanato recolheu e vem amparando com tanto estoicismo, se a caridade torna-se muito mais meritória quando exige sacrificio e bôa vontade daqueles que a praticam?

Cremos haver chegado o momento de cauterizamos com a chama viva do nosso sentimento de compaixão a ferida do nosso orgulho. Não permitamos que dos nossos corações se afastem os bons sentimentos para dar lugar à mesquinhêz das ambições e à angústia da avidez. Não tenhamos a ânsia do lucro desenfreado, nem a usura da extorsão. Mas não permitamos, por outro lado, que a nossa economia seja tão exagerada, a ponto de se transformar em avareza. Apenas ofereçamos um pouco do que temos aos que sofrem, aos que foram esquecidos pela sorte e, principalmente, às crianças do Orfanato "Julia Carvalho", evitando-se que essas mesmas crianças, algum dia, tomadas de vergonha e cobertas de humilhação, possam implorar esmólas pelos cantos das ruas ou pelas portas da Igrejas.

Sejamos caridosos. Sejamos piedosos. Sejamos bons. Vamos dar ao nosso dinheiro o valôr das coisas essenciáis; e o essencial não pertence ao egoismo de alguns, mas à necessidade de todos. Amparemos as crianças do Orfanato, e a exemplo do bom Samaritano, saibamos oferecer o abrigo, derramar o óleo, curar as feridas, oferecer o nosso dinheiro.

Pratiquemos a caridade.

Dignifiquemos as nossas vidas, enchendo-as de cousas nobres, generosas e cristãs.

E em nome das criancinhas enjeitadas do Orfanato "Julia Carvalho", destruamos a pedra que temos em nossos corações e façamos dela um canteiro de jardim, todo coberto de perfumadas rosas!

Geraldo Nogueira

 


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